17 de novembro de 2008


O provocar de mim próprio

Provoco-me irrequieto
Ao excitar da mente
Entre palavras soltas e pensamentos
Sou mais de mim
Dissidente.

Provocam-me as palavras
No entrelaçar da razão
Sou mais de mim
Sou menos mente
Mais coração.

Deixo-me provocar
Pensar, a provocação premente
Provoco-me irrequieto
Provocam-me as palavras
Sou menos razão
Sou mais coração
Inquieto dissidente.

Provoco as palavras
Provocar-me-ão elas a mim?
Indomável turbilhão
Enquanto dissidente
Sou menos mente
Mais coração.

Provoco-me, a mim
Repetição resistente
Enquanto dissidente
Sou mais de mim
Mais coração
Menos mente.

Provoco, provoco, provoco
Provoco-me irrequieto
Sou menos razão
Provocam-me as palavras
Menos mente
Deixo-me provocar
Mais coração
Provoco as palavras
Dissidente
Sou mais de mim?
Conheço presente.

Franco Infante de Melo

16 de novembro de 2008

O vazio

Enquanto o mundo discute, os seus destinos, entre dois homens – Barack Obama e John Mccain – vamos vivendo na sombra. Há que recuperar a máxima «em política as ideias não precisam ser úteis mas parecer úteis».
Fica na retina, contudo, as vozes gritantes da mediocridade intelectual que entende existir a unidade necessária, em torno do primeiro candidato afro-americano à casa branca, Barack Obama, capaz de mudar o curso da história e da humanidade. Fantasia tétrica. O candidato democrata não é mais que o vazio de ideias entre o seu sorriso bonito e contrastante, percebe-se porquê, e o discurso eloquente, claro está, que pompeia.
A campanha pobre, de pensamento e propostas, alimentada pelo recrutamento da militância adepta, do devaneio, claramente apostada na distribuição de panfletos, fundo azul-bebé, onde se subscreve, preto carregado, a mensagem: «Change We Need». O vazio da mensagem, macabro, de quem quer vender a ideia, pouco fundamentada, de que John Mccain representa a continuação da política Bush, em matéria de linhagem externa, a que coloca a América na guerra pela «salvação do mundo» contra um povo apostado em experiências limite.
O paliativo, preocupante, reside no argumento, ou como alguns preferem chamar-lhe, contra-argumento: o racismo proveniente dos totalitarismos do século XX, irracionais e criminosos, deu lugar ao «racismo moderado» das sociedades democráticas modernas. Sociedades cujo triunfo, constatação inquietante, reside no «mal necessário» da pobreza e discriminação serem minoritárias. Um «racismo moderado» que permite, a diferentes raças, a convivência num mesmo espaço de relação e que tolera a integração étnica. O que não tolera é a deriva na liderança da América e dos destinos do mundo.
O vazio impôs-se e os americanos, tal como nós, deixaram de pensar. As heresias dos crentes e os sonhos de Martin Luther King prevalecem. Haja loucura.

André Manuel Vaz

25 de outubro de 2008

A promessa da política

«A promessa da política é a que aponta para a possibilidade de realização de uma forma específica de liberdade do mundo humano; não aquela que deriva da natureza humana, mas a que se impõe a essa natureza no espaço criado pelo relacionamento humano».
Na tentativa de compreender a realidade política global e as possibilidades da política, Hannah Arendt, desenvolve um exercício crítico onde coloca, no centro do debate, a questão do senso comum, da filosofia, do medo, da liberdade, do Homem político, do pessimismo antropológico, de Deus e do Homem como motor de construção. Em «A Promessa da Política», a autora, entende que existe um domínio, que se estabelece entre a natureza bruta do Homem e o «isolamento de Deus», no qual se pode fruir a verdadeira liberdade. Uma liberdade específica que se impõe no espaço criado pelo relacionamento humano. Segundo a autora, essa liberdade específica, adquire substância na ideia: «nem forçados por nós próprios, nem dependentes de condições prévias da existência material». Esse domínio, como alerta Hannah Arendt, aponta para a «necessidade» de criação de um «espaço intermédio» de convivência que não brota da essência humana mas da interacção entre os Homens.
«O colapso do senso comum no mundo presente assinala que a filosofia e a política, apesar do antigo conflito que as opunha, sofreram a mesma sorte». Enquanto a filosofia, como exercício de pensamento, reflecte um acto interior de cada sujeito a política e o seu exercício actuam sobre algo ou sobre alguma coisa. Uma verdade, parece-me, indesmentível. O contacto entre as duas disciplinas torna-se difícil mesmo quando se percebe que ambas tocam lugares comuns. Há, também, na análise da autora, uma visão negativista sobre a utilidade do senso comum na política. O meu desacordo consiste no facto de entender que a razão, como instrumento analítico, não consegue escrutinar toda a realidade. Nesse sentido o senso comum confere, ao Homem, um sentimento de conforto intelectual. Esse sentimento de conforto intelectual constitui o garante, do mesmo, puder desenvolver reflexões mais complexas.
Hannah Arendt considera o medo e a liberdade condições de difícil coabitação. Explicito: A ausência de lei, ou resulta de «democracias pervertidas», a tal ponto que «a força de uma lei anula a força de outra», ou «fica a dever-se à usurpação dos meios de violência por parte de um tirano». Em qualquer dos casos, a partir «da privação de poder geral», surge o medo e perde-se a «artificialidade». «As tiranias estão condenadas porque destroem a reunião dos homens: isolando os homens uns dos outros, destroem a pluralidade do Homem». As problemáticas poder-nos-ão parecer desajustadas pois as democracias modernas à muito que deixaram de colocar, na esfera pública, a questão da reunião e do medo como foco de debate. O que não significa que deixe de as analisar. Todo o poder que tem como sede legitimadora o medo tende a fracassar. Exemplo disso o fim das ditaduras ocidentais e o termo dos projectos comunistas.
«O Homem é apolítico». Hannah Arendt lembra que a manutenção dos mitos conduz o homem à menoridade culpada. Explicito: incapacidade de usar, livremente, do seu próprio entendimento. Esta fuga à menoridade culpada permite-lhe perceber que o Homem não é por natureza político nem tem nada de político na sua essência. A política não brota do Homem mas da sua interacção. Daí a ideia de que a política e a liberdade não são coisas em si mesmas mas construções. «Trata-se da guerra da revolta de cada um contra todos os outros, que são odiados porque existem sem sentido, sem sentido para o Homem criado à semelhança do isolamento de Deus». A concepção pessimista antropológica hobbesiana – o Homem é mau por natureza – é apontada como a responsável pela construção dum espaço intermédio de convivência humana. Elucido: O Homem entregue a si mesmo tende para a brutalidade e para o despotismo. O estado de Brutalidade ou como prefere chamar-lhe Hobbes, «de natureza», aspira ao domínio do Homem pelo próprio Homem. Essa construção intermédia de convivência é a que se estabelece entre a natureza bruta do Homem e a perfeição de Deus. Os Estados são organizações humanas que tendem para condições de domínio intermédio onde o Homem pode fruir a liberdade e onde a acção política, ao cumprir a sua promessa – criação de um espaço de liberdade comum ao Homem – organiza indivíduos diferentes tendo em consideração «a sua igualdade relativa e contrapondo-a às suas relativas diferenças». Percebe-se, pois, que a tendência dos seres humanos para a reunião – «quer a título privado ou social, quer a título público ou político» – os junta e separa uns dos outros, simultaneamente, num mesmo espaço. A quando da reunião dos homens, «o mundo emerge entre eles», e é nesse espaço intermédio, o qual o estado de brutalidade do Homem não proporciona e, para o qual, a «concepção monoteísta de Deus» não soube dar resposta, que são conduzidos os assuntos respeitantes ao Homem.
É-se levado a crer, e do meu ponto de vista erradamente, que a resposta à pergunta de partida – qual é, afinal, a promessa da política? – se torna tão simples e conclusiva de enunciar: a liberdade. Hannah Arendt, por força dos acontecimentos catastróficos que assolaram a humanidade no século XX e sobre os quais a política acarreta responsabilidades, particularmente as experiências totalitárias e a bomba atómica, coloca-se perante uma questão bem mais radical, agressiva e macabra: «continuará a política a ter ainda qualquer sentido?». A verdade, esta inquestionável, surge quando se concebe a política como um «mal necessário» à manutenção da vida humana. Neste sentido a política começou a «banir-se» a si própria. O seu sentido transformou-se, por muito que nos custe, em ausência de sentido.
A pólis, entendida à luz do conhecimento familiar dos Gregos, traduz a «libertação» realizada pela força e pela coerção baseada no «governo absoluto» exercido por cada chefe de família em sua casa. Embora o sentido do domínio político não fosse entendido como meio de tornar a liberdade humana possível constituiu, ele próprio, o «pré -requisito» indispensável no conhecimento de todas as coisas políticas. Aristóteles acresce que a política, no sentido grego, assume o entendimento «de fim e não de meio». Em contraponto, implicada em sentido moderno, a pólis assume-se como o espaço «intermédio», onde os homens, na sua liberdade «específica» – a construída pelo relacionamento humano – interagem uns com os outros sem coerção e resolvem os seus assuntos por meio «da palavra e da persuasão recíprocas». Hannah Arendt propõe que entendamos a pólis como a mais alta forma de vida humana, em comum, e a única onde se pode gozar uma «liberdade específica» – a edificada – pelo relacionamento dos homens e não a que advém da sua natureza. A autora compreende a política, ou a sua promessa, como o instrumento que conduz o Homem à «busca dos seus próprios fins». Um garante da vida no seu sentido mais amplo e um meio pelo qual se dispõe da «felicidade mínima à existência». A política deve, assim, cumprir a sua preocupação primeira – «a vida comum dos homens e não de anjos» – no sentido do Estado, soberano regulador, que detém o monopólio da força bruta, puder tomar as medidas capazes de impedir a «guerra de todos contra todos». Hannah Arendt toma em consideração um aspecto categórico, desta espécie de liberdade política, o de ser uma «construção espacial». O mundo, no espaço criado pela força das leis, permite ao Homem mover-se em liberdade. A noção de «liberdade específica» decorre do entendimento da pólis – construção intermédia de convivência que se estabelece entre a natureza bruta do Homem e a perfeição de Deus – como espaço de «correcção da natureza humana». «O que fica fora desse espaço é sem lei» e, por isso, sem mundo – «no que à comunidade humana importa» – é um deserto.
O meu entendimento da problemática – qual é, afinal, a promessa da política? – aponta noutro sentido. Na Grécia Antiga a expressão política e liberdade confundia-se. Através do desenvolvimento dos meios de força, provenientes do lodo obscuro do projecto moderno, hoje, a política tende para ameaçar a liberdade. Ironia macabra. Os totalitarismos do século XX criaram e desenvolveram a política segundo a promessa da «ordem pela força». Promessa que, sobre qualquer ponto de vista analítico, cumpriu-se. As democracias ocidentais prosperaram a política e a sua promessa como «a liberdade pela obediência». A anarquia propõe um entendimento, utópico e diletante, da política assente na promessa da «liberdade pela inexistência de toda e qualquer força coerciva». Estas constatações tétricas, adoçadas pela verdade oportuna, até oportuna de mais parece-me, de que «a democracia é um péssimo regime mas o menos péssimo de todos», levam-me a colocar a possibilidade da política assumir, de futuro, a promessa da filosofia ou da «filosofia política», como alguns aclaram, a que alude no sentido do esclarecimento. Sobre a tutela do esclarecimento, a promessa da política, deve possibilitar a emergência do Homem sobre a ignorância tornando-se autónomo e usando, livremente, o «senso crítico» que o dirige, assim, para a «maioridade» – o esclarecimento. Os projectos políticos que se seguiram ao iluminismo do século XVIII «transformaram a política em história ou substituíram a história à política». Tenho como verdade o seguinte: assumir que a promessa da política é o esclarecimento é arrogar, também, o projecto iluminista como esboço dum iluminismo em devir. Fica na retina, contudo, a fantasia Pessoana de que «vivemos livres e criativos demais para nos imporem limites».


André Manuel Vaz

17 de outubro de 2008

O conto: A evasão e a glória.
A história de João de Castro Mendes e o Portugal burguês dos sonhos gigantes.

João de Castro Mendes, filho de Manuel Ferreira de Castro e Maria da Conceição Mendes, nasceu e cresceu no Alentejo. Os verdes anos passados entre os campos de trigo e o fruir da liberdade. A infância tolerante no recato do Outono e a juventude excitada pela jovialidade da primavera. Os rasgos cor-de-rosa apareciam a medo. Um medo legítimo para quem se conheceu modesto, afável, moderado e complacente.
A suave infância e a perversa juventude de quem quis viver tudo ao mesmo tempo. Agora, mais do que nunca, Castro Mendes partia à descoberta da dissidência ou do seu acentuar. Conheceu Joana Amaral Tomás num passeio costumeiro de manhã primaveril. A inocência de Joana contrastava com os deslumbres viciosos de Castro Mendes. João era libertino e Amaral Tomás casta. Cedo se tornaram amigos e confidentes. Enquanto Joana desfrutava, candidamente, do seu primeiro beijo João de Castro fabricava fantasias copiosas. Os passeios alongavam-se pelas tardes soalheiras mesmos quando de noite o frio penetra nos quentes corações. Um amor fugaz terminara. João de Castro queria conquistar o mundo mas Joana apenas conquistá-lo. Ironia.
João de Castro Mendes viajou para Lisboa. Por lá viveu e morreu. Perdeu-se em sonhos gigantes. Joana Amaral Tomás viveu e morreu no Alentejo dentro do seio pacato da família que construiu.
Na retina, João de Castro Mendes, traduz o ruralismo progressista diletante. Joana Amaral Tomás o tradicionalismo lusitano. Um conflito macabro num Portugal com saudades de futuro.

Franco Infante de Melo

9 de outubro de 2008

A verdade incómoda

O discurso político caseiro, típico das pretensões eleitoralistas, não olha ao quadro internacional.

Enquanto os partidos do «Bloco Central» definem a estratégia para 2009 as preocupações internacionais redundam. A Direita vive, hoje, a ressaca do cavaquismo. Como movimento político-económico, o cavaquismo, representou o culto do executivo forte, da obra pública, do enriquecimento da Classe Média e a definição e ocupação, por parte do Estado, de sectores estratégicos da economia. Portugal assumia o Modelo Económico Misto onde o sector público e privado conviviam em harmonia e onde o Estado dispunha do papel regulador de toda a actividade económica. Sobre qualquer ponto de vista analítico o cavaquismo colocou Portugal na rota da modernidade. O cavaquismo findou e deixou saudades, os liberais nunca se impuseram e os populistas apaixonaram o PSD cada vez mais fraccionado. Manuela Ferreira Leite fez renascer o Cavaquismo, ergueu o silêncio, fez regressar as elites à pilotagem mas os murmúrios dos divergentes acentuam-se a cada dia que passa. Nunca o PSD esteve tão longo do rumo e os movimentos do anti-excesso brotam.
A Esquerda desfruta do triunfo, não demodèe, da velha máxima: «Em política a melhor propaganda é aquela que não parece propaganda». O Partido-Socialista montou uma cortina de ferro, à qual, só o Bloco de Esquerda tem acesso. Explicito: o intensificar de movimentos marginais, movimentos políticos que conhecem a sua génese no interior dos partidos mas que só adquirem expressão fora deles, deixa antever que dificilmente o PS auferirá de nova maioria absoluta. Manuel Alegre, poeta absorvido pelo sentimento de justiça social, outrora rotulado pelos capangas da Máquina de aposição interna, constituiu-se no veículo de aproximação ao bloco, o qual, o PS reclamara. Da anexação do Bloco ao PS resultará o «Esquerdão». Elucido: o bloco conquistou a Esquerda e o PS o Centro. O contacto de ambos manifesta-se na abertura do PS às questões sensíveis e pelo repensar do Bloco em matéria de rigor orçamental e metas europeias. Nesta conjuntura o «Esquerdão» garante duas clientelas eleitorais: o «Centro excêntrico», romantizado pelo Bloco, e o «Centro Moderando» afecto ao PS.
Kant escreveu: «o uso privado da razão acarreta limitações em nome da manutenção da ordem pública e da consciência de felicidade do Homem». Não reitero a ideia. Angola está a morrer. O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) obteve, nas legislativas de 5 e 6 de Setembro, 81,64% das intenções de voto. Assistiu-se ao controlo do Estado pelo próprio Estado e ao instrumentalizar dos meios de comunicação. Angola reinventou a chamada Fórmula Globo. Elucido: todo o movimento político brasileiro apoiado pela Estação Globo saiu vencedor.
Há um Portugal maquiavélico e negocista na linha da «governação sem governo» trazida pela Europa onde a razão de Estado – os fins justificam os meios – é a máxima dominante. Angola está sem destino e tornou-se um país politicamente inviável onde actua um ordenamento político corrupto. Só os Portugueses não vêem.


André Manuel Vaz

18 de setembro de 2008

O veto presidencial

A teoria da conspiração: coexistem duas alianças de poder no quadro político nacional.

Escrevi, neste meu blog, 28 de Junho de 2008, o seguinte: «o comício do Teatro da Trindade anexou bloquistas, socialistas e comunistas renovadores foi jogada de bastidores do Partido-Socialista». Posteriormente, a 10 de Julho de 2008, acrescentei: «o Partido Social-democrata está condenado à oposição comodista assente na teoria: estando o PSD na linha de Belém, dificilmente, o governo vê promulgados devaneios eleitoralistas. O “Bloco Central”perfilha a intenção da “velha fidalguia intelectual” rumar ao poder. Privados – só há diálogo na existência de lugares comuns – andam por ai, adulando uns, enganando outros, na fugaz tentativa da hegemonia, a reboque, típica do melhor partidarismo».
A «Nova Esquerda» – espaço político romântico, aberto, sensível – é transversal a toda a «Esquerda». A «Nova Esquerda» é o bloquista buliçoso, o comunista renovador e o socialista delicado. Há, portanto, uma área política de convivência comum, a qual, significativa massa adepta da «Esquerda» frequenta. O decreto-lei relativo ao divórcio litigioso, aprovado por toda a «Esquerda Parlamentar», é a constatação disso mesmo. Existe, de facto, uma aliança de poder à «Esquerda» alicerçada pelo intensificar de movimentos marginais.
Arnold toynbee esclarece: «a continuidade ocorre por respostas fornecidas a desafios constantes». Explicita: «as respostas, adequadas ou não, surgem no sentido de garantir a continuidade». A política é balancear de pesos e contra pesos. A aliança de poder à «Direita» estabelece o harmonizar de contrários garantindo, assim, o equilíbrio do quadro político nacional. Elucido: o PSD interpreta, apaixonadamente, o tradicional silêncio cavaquista. Cavaco Silva, naturalmente comovido, interfere nos projectos da «Esquerda» utilizando, abusivamente, os poderes constitucionais de que dispõe. O veto político, ao decreto-lei sobre o divórcio litigioso, afigura a reconstituição da «Direita conservadora», típica do melhor cavaquismo, a qual, Manuela Ferreira Leite reitera.
Importa referir, o entendimento de Adelino Maltez, sobre a matéria em análise: «O que me parece é que o veto reflecte um confronto de concepções do mundo e da vida. Pela primeira vez um Presidente da República "tem um intervencionismo moral”. Há equilíbrios difíceis de gerir a um ano de todas as eleições».
Assiste-se ao renascer do país modesto e rural, «orgulhosamente só», católico, com a chancela de Belém.

Jornal da Mealhada
André Manuel Vaz

27 de agosto de 2008

A falsa concepção da difícil conjuntura

Na política do partidarismo solidário incomoda a dissonância, o debate e a reflexão. O melhor maquinismo partidário, do debate de corredor, faz emergir determinada facção, apostada em fazer valer, interesses comuns. Constituem-se, dentro das máquinas partidárias, blocos de influência que conhecem a sua génese nos corredores do poder. Rapidamente a facção de corredor perfilha um qualquer movimento oposicionista interno encabeçado, por um também qualquer, «homem da máquina». Este Movimentacionismo interno deslindou a seguinte «fórmula de oposição»: Entre Sorrisos, abraços, comprimentos, simpatias e amabilidades lá vai chegando a militância adepta da facção. Nas mesas, geralmente redondas, serve-se o vulgar jantar. No palanque, improvisado, o discurso efusivo, crítico e direccionado à clientela, afecta, correspondido, pelo já habitual, coro do aplausos. Na calha o jornalista romantizado pelo esquema, conhecedor do rodeio, encarregue da notícia, primeira página, letras gordas, no jornaleco diário do dia seguinte. O comentário político, ao cargo de meia dúzia de articulistas de telejornal, os ocupantes costumeiros do monopólio opinativo, enfatiza a fantasia e fomenta o aparecimento destas alas divergentes de ataque às lideranças. Soltam-se palavras de ordem: instabilidade e divisão.
A concepção da difícil conjuntura é a mais recente teoria dos «jornaleiros à Direita». Homens de facção, do movimento contrário à ordem, do cálculo oportunista, liberais pintados de sociais-democratas, apoiantes da conveniência e amantes do corredor. Substancia-se nestes propósitos: a crise internacional, agravada pelo jogo especulativo que envolve o preço do petróleo, é uma realidade permanente. A ideia vanguardista liberal apostada na auto-regulamentação do mercado, pelo próprio mercado, fracassa e a concepção de preço de equilíbrio é ilusão. Portugal, economia de dependência, encontra-se, desta forma, submerso numa crise económica sem precedentes. A crise económica abre, então, a porta à crise social traduzida no fim da classe-média, no desemprego, na precariedade, na pobreza e na segregação social. Há, portanto, uma crise internacional efectiva, à qual, as economias de dependência não conseguem fazer frente e que, em ultima análise, afecta todo a sociedade civil. Estão reunidas as condições necessárias ao fim do governo socialista. A solução, em 2009, só pode significar uma «viragem à direita».
A concepção da difícil conjuntura, teoria a cargo dos «mandatários da Direita», afigura-se desprovida da qualquer estudo político. O ataque do Partido-Socialista ao «Centro moderado» só pode significar uma perda à «Esquerda». O crescimento do Bloco não se traduz na alternativa mas a ocupação do espaço político deixado pelo PS na sua deslocação para o «Centro». A estratégia da «Esquerda», para 2009, consiste em forçar, cada vez mais, a deslocação do PS ao «Centro» e ocupar, definitivamente, a «Esquerda». Ao «Centro Direita», a estratégia da omnipresença, traduz-se em Ocupar a totalidade da «Direita», acumulando a facção do CDS-PP, disputar do «Centro», com o PS, e, a «bandeira social-democrata», permite dividir a «Esquerda».
Em 2009, à «Direita», o termo da solução messiânica, do regresso triunfante do salvador, do cavaquismo forçado e esforçado e da intenção aristocrática de rumar ao poder conduz ao principiar do movimento híbrido, da ideologia mista e da hegemonia do anti-excesso.
O Partido-Socialista está condenado, com ou sem maioria absoluta, a ser novamente governo.

Jornal da Mealhada
André Manuel Vaz


10 de julho de 2008

Portugal vai assim: corre o Bloco para o «Centro-Esquerdão», logo, cai outro Bloco…ò «Bloco Central».

O déspota, opressor e prepotente António Oliveira. Américo o complacente e benévolo. A política é a arte de harmonizar contrários e tão bem conviveram eles. Enquanto o país esmorece, o silêncio, à direita, vai marcando passo. Tem sido a marca clássica do cavaquismo responsável.
O regresso ao «centrão» seria uma possibilidade que a pesada herança cavaquista dissipara. O Partido Social-democrata está condenado à oposição comodista assente na teoria: estando o PSD na linha de Belém, dificilmente, o governo vê promulgados devaneios eleitoralistas.
Platão disse outrora: «o excesso costuma ser correspondido por uma mudança radical, no sentido oposto, quer nas plantas, quer nos corpos, e não menos nas cidades». O cavaquismo fomenta, estimula e excita o populismo. O anti-excesso é a principal arma política que Rui Rio têm, de futuro, a apresentar ao PSD.
Não menos relevante a facção liberal do PSD que não deixa de ser social garantista. Percebo a ideia: tendo o PSD imoderadas clientelas não vá, uma candidatura de facção, ser mais facção ainda.
À margem das guerrilhas internas do PSD está o Bloco de Esquerda. A ideia da chamada «Nova Esquerda» onde, em hipótese, coabitam, no mesmo espaço político, socialistas, bloquistas e comunistas renovadores assume contornos de embuste que só as teses da neoanexação estratégica explicitam. Corre, portanto, a Bloco para PS e este, conivente, deixa-se apanhar arquitectando, assim, o «Esquerdão».
O «bloco central» perfilha a intenção da «velha fidalguia intelectual» rumar ao poder. Privados – só há dialogo na existência de lugares comuns – andam por ai, adulando uns, enganando outros, na fugaz tentativa da hegemonia, a reboque, típica do melhor partidarismo.
A fantasia: diria Oliveira ao benévolo Américo: «a política é a arte de possível e nunca do óptimo».

André Manuel Vaz

4 de julho de 2008

A grande ilação: “Uma mentira repetida, várias vezes, torna-se verdade”, Joseph Goebbels.

A Universidade de Harvard propõe o estudo da Psicologia Positiva. Elucido: “Estudo científico do funcionamento humano óptimo”. A Psicologia Positiva instrui, entre outras coisas, a tornar-se feliz. O fim último da civilização: a fórmula da felicidade. Arroga que atendamos com optimismo “ o mundo que nos rodeia”. Explicita que “a forma como vemos o mundo” traduz o modo como “o mundo olha para nós”.
A psicologia positiva traduz o optimismo oco, emotivo e popular pouco, ou nada, razoável. Tenho como verdade o seguinte: as massas mergulham no optimismo com medo de respirar verdade.
O pessimismo é racional, é duro, é obsceno, é perverso. Sou um forçado pessimista, prisioneiro da racionalidade, da analisa, da crítica arrogante e mordaz. O pessimismo é viciado, é pervertido e olham o fim com propósito.
A ideia de sociedade feliz é repisada na substância: também somos o que dizem que somos. Se dizem que somos felizes, logo, somos felizes. Fica a razão deixada ao abandono. Só é opinião o pensamento pessimista, todo o resto é contemplação.
Substancio o meu derrotismo no seguinte: ou percebo, continuamente, que tenho razão ou sou agradavelmente surpreendido.

André Manuel Vaz

28 de junho de 2008

A teoria da conspiração

O comício do Teatro da Trindade anexou bloquistas, socialistas e comunistas renovadores foi jogada de bastidores do Partido-Socialista. A «máquina socialista» convive, relativamente bem, ao contrário do que ostenta parecer, com os devaneios alegristas. A joga é evidente: se, em 2009, o Partido-Socialista obtiver nova maioria absoluta, ideia que se vai esvaziando, Manuel Alegre constitui-se como aposição interna do partido, esquerdista da ilusão, poeta idealista e o Bloco antro dos lobbys homossexuais. Caso contrário o PS, com maioria relativa, coligar-se-á ao Bloco. Ai Manuel alegre foi o socialista consciente, o poeta absorvido pela justiça social e o elo de ligação ao Bloco que o partido reclama. Ò Bloco da justiça, ò Bloco da moral, ò Bloco da ética, ò Bloco, ò Bloco, ò Bloco…
Outrora o cavaquismo fora a alternativa. Hoje, com Ferreira Leite, é a transição para o populismo disfarçado, fingido e responsável de Rui Rio. Telho-o dito: o PSD nunca conheceu, senão o populismo, outro antídoto ao cavaquismo. Aquando das legislativas, em 2009, o PS preparou o regresso triunfante, à esquerda, com o Bloco. O Partido Social-Democrata sai, mais uma vez, derroto às costas do cavaquismo. Ò nostalgia, ò tristeza, ò saudade, ò cavaquismo vácuo, ò impossibilidade do retorno ao «centrão», ò PSD, ò PSD, ò PSD...

André Manuel Vaz

21 de junho de 2008

PSD: entre o messianismo desesperado e o populismo sedutor

Do triunfo de Manuela Ferreira leite nas internas do Partido Social-Democrata há ilações claras a reter. O PPD-PSD é um partido fraccionado e de sentimentos contraditórios. O populismo emergente, cativante e entusiástico está agora na sombra do cavaquismo sólido e maciço pronto a manifestar-se aquando oportuno momento. Com Ferreira Leite “a bordo” do PSD o regresso ao passado está ai tanto na forma como no conteúdo. Reina de novo, agora como dantes, a aristocracia intelectual deixada ao abandono pela hegemonia dos movimentos liberais e reformadores.
O PPD-PSD é um partido profundamente messiânico. O único antídoto que conhece ao populismo é o cavaquismo ou as suas formas sucedâneas. Quando se esvaziaram os devaneios santanistas lá veio o firme cavaquismo através de Marques Mendes. Enquanto o partido se iludia em fantasias Menezistas ai está o pragmatismo cavaquista com Manuela Ferreira Leite.
Este dilema traduz a disparidade entre o Novo PSD, da escola neoliberal e reformadora, e o Velho PSD do culto do Estado como supremo regulador.
O PPD-PSD é, hoje, um misto de cavaquismo, de nostalgia, de saudade do passado, de populismo oportunista, de movimentos de ascensão, de pensadores fantasistas, de oportunistas costumeiros e de movimentos contra-hegemónicos.
Conseguirá a “Velha Guarda Social-democrata” silenciar tudo isto?

André Manuel Vaz

20 de junho de 2008

Que Intervencionismo de Estado?

«A democracia vai morrendo» Vasco Pulido Valente
Sequela do “ânimo leve”, do “corriqueiro racionalista” e da “convicção casmurra”, aliás, bem portuguesa, apresentamo-nos, face à sociedade e ao mundo, visivelmente bem domesticados. É a moda do “Der Ser”, do “Dever Pensar” e do “Dever Agir” desta Comunidade Europeia dicotómica entre o relativismo galopante e o «orgulhosamente sós» do nosso “querido amigo”. É o “Dever Ser” que nos impede fumar em locais públicos. O “Dever Pensar” alerta para a necessidade da preservação da saúde pública e dos “coitadinhos” dos fumadores passivos. O “Dever agir” obriga a frequentar “guetos” para quem desfruta do vício ou, sabe-se lá, do prazer do cigarro.
O “rebanho”, a massa social e o cidadão comum vão ao leme deste entendimento. Numa primeira abordagem à questão, também eu, confesso, integrei o “rebanho” dos que defendem, em nome seja lá do que for, um intervencionismo de Estado radical, tirano, pesado e intransigente. Docilmente fascista, suavemente totalitário, brandamente ditatorial e meigamente repressivo. Pensar assim é não entender o dilema. Este intervencionismo atroz toma conta do Individuo, da sua liberdade individual e da singularidade como pessoa. O Estado tal como a Europa têm vindo a “comer” o Individuo.
Uma Europa apostada na uniformização de processos e que vai na “onda” da globalização desmedida. Onde prolifera a tolerância acéfala, saudável, permissiva, moderada e vazia em si mesmo. Uma Europa que não tolera nem atende, aos restos, de uma “burguesia” enfatizada. Pomposa, culta, excêntrica, elitista, e intensamente crítica, que, não alinhando nem com os “cardumes” nem com as “manadas” de opinião, vai entendendo o dilema. Vai entendendo, que a tal ânsia desmesurada, na marcha para a unidade de Europa, colide, com uma sociedade heterogénea, diferenciada e que a sua riqueza, está, na existência de diferentes especificidades culturais, que, mais ou menos harmonicamente, convivem entre si. Num mundo de multiplicação e divisão, dos centros decisórios, a Europa quer, loucamente, reunir-se.
É o desejo Quimérico da sociedade perfeita e igualitária. É a diferenciação prepotente, tipicamente Ocidental, de uns melhores do que outros. É a ilusão do “espaço vital” hitleriano.
A democracia vaia-se esgotando com o estreitar dos direitos individuais.

André Manuel Vaz

A Questão Cubana

“O povo cubano e a revolução socialista devem muito a Fidel Castro. Teve um gigantesco papel na liberdade, na soberania de estado e no prestígio de cuba”, Albano Nunes, comissão política do PCP.
São estes os argumentos da “velha esquerda”, portuguesa, em relação à forma como cuba foi dirigida durante meio século. Esta “velha esquerda”, conservadora e de boa ética, entende que meio século de dirigismo político de um país, centrado na figura de Castro, constitui um bom presságios de um regime saudável, renovador e representativo. Considera que um ditador, como foi Fidel, teve “um gigantesco papel na liberdade”. É a teoria de que é possível coexistir liberdade com prisões políticas, com autoritarismo de estado, com vacuidade de liberdade de imprensa, com perseguição à oposição política, com inexistência de pluralismo e com um regime fechado em si e para si. Vê na soberania de estado a guerra com os E.U.A. e não o entendimento dos fins últimos do Estado: paz social, justiça e a ordem pública.
Agora a questão central é perceber o futuro próximo de cuba. Há, loucamente, quem acredite que o sucedâneo Raul Castro conduzirá cuba à liberdade. Não tenhamos ilusões. Raul Castro representa a “evolução na continuidade” marcada pelo hipotético progressismo do regime.
Cuba, sobe alçada de Raul Castro, será a fantasia Marcelista que esvoaçou no “céu português” por altura da Primavera.

André Manuel Vaz
Globalização e complexidade

Pensar a globalização é compreender teilhard de chardin. A globalização entendida como processo de aproximação planetária onde proliferam pontos de contacto comuns é tida como co-responsável no surgimento da cultura de massas. Potenciou, mais ou menos explicitamente, a interdependência mundial, o aprofundar das relações entre pessoas e Estados bem como a intensificação dos mercados internacionais.
Padre e filósofo, chardin, presta um interessante contributo à compreensão do fenómeno. A base explicativa da sua teoria prende-se com o entendimento das noções de “convergência”, “divergência” e “emergência”.
A convergência traduz-se na marcha para a unidade do mundo e no aparecimento de blocos de interesses e influência. A União Europeia constituiu-se com base nesses pontos de contacto comuns assumindo-se como um dos blocos de influência mais marcantes do século 20.
A divergência manifesta-se com a multiplicação dos centros decisórios. No aparecimento de poderes erráticos e infra estaduais. No surgimento de novos Estados e no despertar de movimentos contra hegemónicos. Os diferentes grupos de pressão, conhecidos sobre a forma de “lobbys”, apresentam-se como uma alternativa da influência sobre o poder legislativo em favor de interesses tidos como privados.
A emergência constitui-se, assim, como um estado mais complexo de entendimento, de uma dada realidade, não pela síntese de diferentes convergências e divergências mas pela sua superação.
Assim, nas relações internacionais, há, em cada momento, sinais de convergência e de divergência e concludentemente novas emergências. Ao mesmo tempo que as relações multilaterais e de dependência se impõem surgem novos actores nas relações internacionais num contínuo processo de equilíbrio e desequilíbrio do quadro internacional.
Neste sentido considera-se a globalização uma “filha legítima” resultante do intensificar de estados de entendimento e da sua consequente superação em realidades mais complexas.
A propósito, José Adelino Maltez, propõe, a fim de reflexão, o conceito de “medo global”. A dada altura o Homem apercebe-se da existência de inimigos comuns contra os quais, cada um de nós, sozinho, nada pode fazer. São eles, a título de exemplo, o aquecimento global, o efeito estufa, a desertificação, a poluição e o degelo. Com base neste novo sentimento de consciência global, trazido pela ideia de “medo global”, assistiu-se ao acelerar dos processos de Mundialização.
Na tentativa de compreender os futuros efeitos da globalização vamos proceder de uma forma bem portuguesa: encontrar culpados e equacionar cúmplices. Culpa-se a revolução tecnológica, a massificação dos meios de comunicação e o efeito aldeia global aliados ao jogo especulativo, ao capitalismo selvagem, aos interesses privados e aos monopólios de influência.
Não temos, a modéstia, de considerar a globalização o reflexo da complexificação do homem enquanto ser que racionalmente existe e, que por existir, teme.
É esse o contributo dado por teilhard de chardin e Adelino Maltez.

André Manuel Vaz